Revista de estudos orientais


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REVISTA DE ESTUDOS ORIENTAIS

USP - Universidade de São Paulo
Reitor: Suely Vilela
Vice-Reitor: Franco Lajolo
FFLCH - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Diretor: Prof. Dr. Gabriel Kohn
Vice-Diretor: Profa. Dra. Sandra M. Nitrini
Departamento de Letras Orientais
Chefe: Mamede Mustafa Jarouche
Vice-Chefe: Arlete O. Cavaliere
Revista de Estudos Orientais N. 6
Editor Responsável
Berta Waldman
Conselho Editorial
Alexandre Jebit (Acad. de Diplomacia - M.R. Ext. Moscou)
Boris Schnaiderman (USP)
Franz Shumann (Univ. Califórnia)
Haquira Osakabe (Unicamp)
Lídia Massumi Fukasawa (USP)
Milton Hatoum (Univ. Amazonas)
Richard Hovannisian (Univ. Califórnia)
Roshdi Rashed (CNRS - Paris)
Sakae Murakami Giroux (Univ. Strasbourg)
Saul Sosnowski (Univ. Maryland)
Departamento de Letras Orientais - FFLCH-USP
Av. Prof. Luciano Gualberto, 403 - Cid. Universitária
05508-900 - São Paulo (SP) - Brasil
Tel.: (11) 3091-4299 / Fax: 3091-4892
e-mail: flo@usp.br

REVISTA DE ESTUDOS ORIENTAIS
N. 6
Revista do Departamento de Letras Orientais da 
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas 
da Universidade de São Paulo
Revista de Estudos Orientais • n. 6 • pp. 1-280 • São Paulo • janeiro 2008
ISSN 1415-9171.

Serviço de Biblioteca e Documentação da Faculdade de Filosofia, 
Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo
Revista de Estudos Orientais / Departamento de Letras Orientais. Faculdade 
de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Universidade de São Paulo. 
-- n. 6 (2008)-. -- Campinas : Santos e Caprini, 1997-
Anual.
Publicado: Humanitas, N. 1 (1987)-n. 3 (1999); Ateliê, N. 4 (2003)-n. 5 
(2006).
ISSN 1415-9171.
1.  Estudos  orientais.  2.  Cultura  oriental.  I.  Universidade  de  São  Paulo. 
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de 
Letras Orientais.
21ª. CDD 306.950
950.07
DIREITOS RESERVADOS PARA A LÍNGUA PORTUGUESA:
Santos e Caprini Materiais Gráficos e Editora Ltda
C.N.P.J.: 79.643.417/0001-22 - I.E.: 90.390.319-89
Rua Padre Anchieta, 1691 - Bigorrilho - Curitiba/PR
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Copyright©2008 by autores
Direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19.02.98
É proibida a reprodução total ou parcial sem autorização, 
por escrito, da editora.
ISSN 1415-9171.

ÍNDICE
Apresentação ................................................................................................... 07
Três Poemas sobre o Gazel ............................................................................. 09
AMÂNCIO, Moacir
Línguas Semíticas na Universidade de São Paulo .......................................... 14
ARAÚJO, Reginaldo Gomes de
Indicações a Respeito da Divisão das Ciências                                                         
em IBN SINA (AVICENA)............................................................................. 29
ATTIE Filho, Miguel 
Do Estudo Acadêmico da Bíblia Hebraica ...................................................... 36
CHWARTS, Suzana
Nas Tramas das Noites .................................................................................... 41
CODENHOTO, Christiane Damien
Elementos Formadores do Imaginário sobre o Japonês no Brasil. ................. 46 
DEZEM, Rogério
As Cidades, a Fauna e a Flora do Brasil no                                                          
Testemunho Ocular de um Viajante Árabe ..................................................... 60
FARAH, Paulo Daniel
A “Fórmula do Horror à Russa” na Belle Époque Brasileira .......................... 66
GOMIDE, Bruno Barretto
A Tradição Cristã e a Valorização da Origem Judaica de Figuras da Poesia 
Romântica Brasileira ....................................................................................... 82
JESUS, Daniel Santana de 
Rasgar el Presente: Memoria y Fabulación                                                              
en Relato de um Certo Oriente ........................................................................ 90
KANZEPOLSKY, Adriana 
Diáspora Armênia no Brasil .......................................................................... 103
MARCARIAN, Mônica Nalbandian

A Multiculturalidade Otomana. Imigrantes Judeus                                                
do Império Otomano no Brasil  .................................................................... 110
MIZRAHI, Rachel
Os Concursos de Beleza na Comunidade Nipo-brasileira                                        
e a Imagem da Mulher Nikkei ...................................................................... 123
MORI, Koichi e INAGAKI, Bárbara
The Structure and Significance of The Spiritual                                                    
Universe of The Okinawan Cult Center ........................................................ 167
MORI, Koichi
A Origem Indiana de um Mito do Brasil Colonial ........................................ 196
NAVARRO, Eduardo de Almeida
Integração Cultural dos Imigrantes Chineses no Brasil ................................ 206
SHYU, David Jye Yuan e JYE, Chen Tsung
Sentidos do Corpo: Os Usos de Drogas na Sociedade Islâmica Medieval ... 234
SOARES, Marina Juliana de Oliveira
Faces e Contrafaces: alguns aspectos da Obra de Amós Oz ......................... 253
WALDMAN, Berta 

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APRESENTAçãO
Este número da Revista de Estudos Orientais foi planejado em articulação com o  
próximo, havendo uma inversão entre ambos: o tema que enfeixa os trabalhos deste 
número é “O Oriente no Brasil” e o do próximo número, “O Brasil no Oriente”, o 
que os torna complementares e, por isso mesmo, potencialmente abrangentes.
Os estudos e ensaios que compõem este número abrem um painel em que o 
Oriente  desponta  tanto  nas  pesquisas  ou  estudos  acadêmicos,  relevando  suas 
múltiplas culturas,  como também na marca que os imigrantes orientais deixaram,  
a partir de sua chegada ao Brasil, em fins do século XIX e princípios do século XX,  
quando vêm para substituir a mão-de-obra escrava principalmente na agricultura. 
Um  dos  resultados  desse  processo  é  que  o  Oriente  torna-se  presente  nas  ruas 
brasileiras,  no  comércio,  na  indústria,  na  academia,  na  literatura  traduzida  ao 
português, na literatura dos descendentes de povos orientais, cunhando em nossa 
literatura um modo estranhado de ser.
 Os trabalhos distribuem-se, neste número, contemplando esses dois aspectos 
do Oriente. Assim, Paulo Daniel Farah apresenta, em seu relato,  o percurso de 
um viajante árabe, na segunda metade do século XIX, que permaneceu durante 
três anos no país, percorrendo o Rio de Janeiro,  a Bahia e Pernambuco. Rogério 
Dezem estuda a construção/desconstrução dos discursos relativos aos imigrantes 
do Oriente longínquo no Brasil, focalizando os estereótipos estigmatizadores dos 
chineses e japoneses. David Jye Yuan Shyu e Chen Tsung Jye  refletem sobre o 
processo de adaptação de imigrantes chineses no Brasil. Rachel Mizrahi apresenta 
a imigração dos judeus sefarditas e orientais que se fixaram em São Paulo e no 
Rio de Janeiro, em fins do século XIX, e suas formas de organização comunitária. 
Koichi Mori (com Bárbara Inagaki) analisa a transformação da imagem da mulher 
descendente de japoneses no Brasil, no período da Segunda Guerra Mundial, através 
de concursos de beleza promovidos nas comunidades nikkeis;  examina também, 
em outro trabalho, as características e os significados do universo espiritual dos 
deuses  e  dos  espíritos  no  centro  espírita  criado  por  uma  japonesa  que  imigrou 
para o Brasil, vinda de Okinawa. Já Eduardo de Almeida Navarro relata a história 
do mito de São Tomé desde seu surgimento na Índia e sua subsistência no Brasil 
do período colonial. Marina Juliana de Oliveira Soares apresenta o modo como 
os árabes muçulmanos encaravam o uso de drogas durante o período medieval. 

8
Reginaldo Gomes de Araújo analisa a história das línguas semitas ensinadas na USP, 
enquanto Bruno Barretto Gomide detém-se na recepção mundial da literatura russa 
no século XIX, focalizando os textos produzidos no Brasil da belle époque. Mônica 
Nalbandian Marcarian apresenta a Diáspora Armênia no Brasil  e Daniel Santana 
de Jesus lê a presença de figuras judaicas na poesia romântica brasileira. Adriana 
Kanzepolsky trata da recorrência à memória que mistura lembrança e invenção, 
em Relato de um certo Oriente, de Milton Hatoum, escritor brasileiro de origem 
libanesa, enquanto Berta Waldman examina o modo como o autor israelense Amós 
Oz transforma política em literatura. Moacir Amâncio traduz poemas de dois poetas 
medievais – Samuel Hanaguid e Judah Halevi – e Christiane Damien Codenhoto 
ressalta as fontes e traduções de As Mil e Uma Noites. Miguel Attie Filho discute 
a divisão das ciências de acordo com as informações contidas na Metafísica da Al 
Shifa’ e na Epístola sobre as partes das ciências intelectuais de Ibn Sina (Avicena: 
980-1037 d.C.) e Suzana Chwarts faz uma retrospectiva da trajetória dos estudos 
acadêmicos da Bíblia Hebraica e suas diferentes formas de análise.
Como  se  vê,  este  número  reúne  tradução,  ensaios  e  estudos  de  abordagem 
múltipla — antropológica, histórica, filosófica, lingüística e literária — oferecendo 
um panorama amplo e variado dos estudos orientais no Brasil, tanto do Oriente 
longínquo, quanto do Oriente que vive em nós, entre nós.
Berta Waldman
maio de 2007
 
 
 
 
 
 
          

9
TRêS POEmAS SObRE O gAzEL
Moacir Amâncio*
Para Odile Cisneros
Resumo: A figura do efebo (o gazel) é aqui apresentada na tradução de três 
poemas de dois autores judeus medievais da Espanha: Shemuel haNaguid e Iehudá 
haLevi. São vistos como textos que enriquecem a obra dos respectivos poetas, na 
perspectiva rigorosamente literária.
Palavras-chave:  Efebo,  haNaguid,  haLevi,  poesia  hebraica  medieval, 
tradução.
Abstract:  The  ephebe  in  poems  from  Samuel  Hanaguid  and  Judah  Halevi 
cannot be ignored in its historical and religious implications. Anyway, the poetic 
expression  must  be  taken  as  leading  criterion  every  time  we  are  talking  about 
translation and literary conventions. 
Key words: Ephebe, Hanaguid, Halevi, Hebrew medieval poetry, Translation 
Gazel ou tsvi. As duas palavras, a primeira em árabe, a segunda em hebraico, 
têm  o  mesmo  significado  e  podem  ser  traduzidas  para  corço  ou  simplesmente 
veado. É como os efebos que serviam à mesa eram chamados pelos poetas árabes e 
judeus da Andaluzia medieval, notável pela mescla de culturas. Foi sob a influência 
árabe que a poesia hebraica, à época, deixou a exclusividade da sinagoga, adotando 
o laicismo e até mesmo certa licenciosidade erótica. A figura do tsvi, e da tsviá
a  gazela,  aparecem  em  poemas  escritos  por  autores  que  além  de  virtuosos  da 
língua também podiam ser grandes exegetas bíblicos, filósofos e guerreiros. Eram, 
portanto, rabinos, poetas, soldados, políticos e poeticamente hedonistas cantando o 
vinho, a flora, a amizade e o amor. A produção cultural intensa entre os séculos 10 
e 12 justifica a denominação de ciclo de ouro para esse período. 
__________
* Professor Doutor de Língua e Literatura Hebraica da Universidade de São Paulo

Moacir Amâncio - Três Poemas sobre o Gazel
10
Os três poemas aqui apresentados, sobre o tema do efebo, foram escritos pelo 
guerreiro e político Shemuel haNaguid (993-1056) e por Iehudá haLevi (cerca de 
1075-1141), que se ocupou da medicina, da filosofia e da poesia e empreendeu 
a longa viagem de volta a Sion, tendo sua morte duas versões. A lendária: teria 
sucumbido sob as patas de um cavalo diante das muralhas de Jerusalém. A outra: 
morreu no Egito. 
Nos poemas de Shemuel haNaguid temos dois instantes do tsvi (sinônimo, ôfer), 
em textos breves e muito ágeis, que surpreendem pela riqueza das imagens e pela 
força de sugestão obtida em espaço tão restrito. Já o texto de Iehudá haLevi é um 
shir ezor ou muashahá, um poema construído com um colar de rimas e encerrado 
por versos fixos, de uso comum, normalmente escritos em árabe e romance. Os 
dois autores enaltecem a figura do tsvi e, à parte discussões sobre seus objetivos, 
deve-se notar que esses poemas se impõem pelo que são, pela expressão poética, 
da  qual  procurei  trazer  algo  para  o  português.  Evidentemente,  esses  poemas 
encontram resistência e muitas vezes foram e são evitados, mas não há como negar 
a existência deles e hoje há vários estudos a respeito, seja no campo literário, seja no 
âmbito histórico e dos costumes
1
. Ignorá-los é ignorar parte da obra desses gigantes 
da literatura hebraica e medieval. Claro, quando tomamos conhecimento de tais 
versos,  compreendemos  que  dificilmente  questões  históricas  e  religiosas  serão 
evitadas de início, no entanto, as implicações literárias logo se sobrepõem, pois 
não se pode esquecer o âmbito da convenção poética em que também se inscrevem 
(lembremos as canções de amigo), como Shirman percebeu em seu brilhante ensaio 
intitulado The Ephebe in Medieval Hebrew Poetry
2
. Para o lado dos fatos, parece 
pender a evidência de que até hoje se utiliza em português o termo veado para 
designar, agora de modo chulo, destituído de qualquer nobreza, o efeminado ou 
alguém inclinado ao homoerotismo masculino. Como sugere Shirman no estudo 
citado, mesmo a arte pela arte deve ter no primórdio algo de base real. Usei o árabe, 
gazel, com sua sugestão de beleza inusitada (além da relação com gazela) e como 
uma maneira de evitar o desgaste da palavra portuguesa, tendo para isso consultado 
os professores de árabe Safa Jubran e Mamede Mustafa Jarouche.   
1. Pesquisas trazem informações sobre hábitos de uma época em que era de bom-tom cultivar efebos. Havia 
haréns formados por eles. Tanto o judaísmo como o islamismo condenavam tal prática e a poesia resultante, 
mas houve também uma sacralização do gênero. Na poesia hebraica, o tsvi passaria a simbolizar Israel, ou rei 
Davi. Basta lembrarmos a interpretação alegórica do Cântico dos Cânticos para termos uma idéia de seqüência 
histórica. Ver a respeito: Juan Ruiz’s Heterosexual “Good Love”, em que Daniel Eisenberg sugere que a obra 
do título na verdade refere-se ao amor homossexual por um escritor cristão (disponível na Internet), e The 
Gazelle, de Raymond P. Scheindlin, sobre a simbologia religiosa.
2.  Shirman,  Jefim  (ou  Haim),  The  Ephebe  in  Medieval  Hebrew  Poetry,  em  Sefarad  –  revista  de  estudos 
hebraicos, sefardies y de Oriente Próximo, no. 15, 1955, p. 56-68

Revista de Estudos Orientais n. 6, pp. 09-13 - 2008
11
Na  transposição,  mantive  o  esquema  de  rimas  e  a  forma  dos  hemistíquios, 
nos  poemas  de  Shemuel  haNaguid  (Samuel  o  Príncipe,  título  outorgado  a  ele 
por ter sido ministro do governo árabe de Granada). No caso de Iehudá haLevi 
mantive a forma do shir ezor e adaptei o fecho para o português, utilizando-me 
de Shirman, guia fundamental nesta matéria. A busca foi de um tom próximo ao 
de uma canção. Tomei, claro, algumas licenças em relação aos originais, sempre 
tendo em conta que não existe uma única e “correta” tradução de um poema e 
sim várias, dependendo do tradutor e da época 
3
. Não vou expor aqui todas essas 
licenças nos detalhes porque explicar um poema em sua construção significa entre 
outras coisas o risco de enfraquecê-lo, se não de negá-lo – e o desafio neste caso 
é chegar o mais perto possível de um poema no idioma de chegada, que só então 
terá efetivado seu encontro com o texto escrito no idioma de partida, ou motivo de 
inspiração. Acrescente-se, quando se coteja com outra versão, surge a oportunidade 
de aproveitar o resultado, ou deixá-lo para lá, etc. Por exemplo, Shemuel haNaguid 
configura a lua como a letra iud, um gancho suspenso no céu. T. Carmi, numa 
tradução inglesa, utilizou o C, que foi trazido para o texto aqui presente por ser 
uma solução óbvia pela sua visualidade. Já quanto a barêket, uma pedra preciosa, 
comumente entendida como esmeralda, preferi adaptar para “topázio”, pois uma 
das cores inequívocas da lua é, como se sabe, o amarelo.
Shirman observa que nos melhores momentos tais poemas podem ser incluídos 
na  “longa  lista  de  criações  similares  na  literatura  mundial,  começando  com  os 
autores  gregos  do  período  clássico  e  de  períodos  posteriores  (Anacreonte),  até 
proeminentes  representantes  do  Oriente  (árabes,  persas)  e  algumas  destacadas 
figuras da poesia moderna”, como Shakespeare, e Walt Whitman 
4

3. “Na verdade, o tradutor promove o encontro de dois polissistemas de signos, engajado na arte de transpor o 
sentido poético de um sistema a outro”, diz Fábio Lucas em A Tradução da Poesia, LB, – revista da literatura 
brasileira, no. 23, p. 23
4. Shirman, idem, p. 68

Moacir Amâncio - Três Poemas sobre o Gazel
12
Shemuel haNaguid
Daria a vida por / Gazel que despertou
À melodia de harpa / E de flautas, gracioso,
E ao ver na minha mão / Um copo, disse assim:
“Beba em meus lábios sangue / De uvas especioso!”
E a lua como um C / Grafava-se por sobre
A veste toda treva / Em ouro precioso.
                        ***
Daria a vida por / Tão pérfido gazel.
Amor por ele em meu / Peito ferroa agora.
Aquele que ao erguer / Da lua perguntou:
“Vês o esplendor de meu / Rosto e apareces? Ora...”
A presença da lua / Nessa noite escura –
O topázio que à mão / De uma negrita aflora.
                        ***
Iehudá haLevi
Oh, oh gazel, oh senhor,
Olhos ponha em meu sofrer,
Que não cresça este penar.
Bem, bem faça à minha alma / Teus cuidados trazem calma.
Compadeça deste pobre
Que por ti jejua e sofre
Enquanto o maná não chove.
Teu, teu o teu bom maná / Por única paga, dá!
Se zombas de meu penar,
Veja a coita neste olhar.
Mas tua resposta: “Azar!
Não, não, nada na rede / Só do que não tenho sede.”
Eu me culpo toda vez:
Se temes, seja cortês,
Volva meu sono e talvez
Voes, voes, caias como / Ave na rede em meu sonho.

Revista de Estudos Orientais n. 6, pp. 09-13 - 2008
13
Se peço um beijo a morrer,
Enrubesce, alvorecer – 
Assim esplende o seu ser:
Tal, tal o branco exangue / se transforma em vivo sangue. 
Parte-me seu canto a alma,
Mas canta, porque me inflama,
Basta um beijo, a boca clama:
Já, já beija co’alegria / E esquece a melancolia.
                        ***
Bibliografia:
Shirman, Haim, HaShirá haIvrit beSefarad uvProvence, Mossad Bialik, Jerusalém, 
1954, vol. 1
Shirman, Jefim (ou Haim), The Ephebe in Medieval Hebrew Poetry, em Sefarad – 
revista de estudos hebraicossefardies y de Oriente Próximo, no. 15, p., Madri, 
1955, 56-68
Carmi, T., Hebrew Verse, Penguin, Nova York, 1982
Scheindlin, Raymond P., The Gazelle, Oxford University Press, New York/Oxford, 
1991
Eisenberg,  Daniel,  Juan  Ruiz’s  Heterosexual  “Good  Loves”,  em  Queer  Iberia, 
Duke University Press, 1999, p. 250-74
Lucas, Fábio, A Tradução de Poesia, em LB – revista da literatura brasileira, n. 
23, São Paulo, 2001, p. 22-27.

15
LÍNgUAS SEmÍTICAS NA 
UNIVERSIDADE DE SãO PAULO
Reginaldo Gomes de Araújo*
Resumo:  Este  artigo  propõe-se  a  apresentar  as  línguas  semíticas  que  são 
ensinadas  na  Universidade  de  São  Paulo.  Começando  pelo  panorama  histórico, 
nós apresentaremos o momento em que as línguas semíticas iniciaram na USP. 
Depois, apresentaremos uma concisa introdução do que são línguas semíticas e 
suas respectivas classificações. Finalmente, descreveremos quais línguas semíticas 
e seus respectivos níveis são ensinados na USP.
Palavras-chave: Línguas semíticas, árabe, hebraico, aramaico.
Abstract: The purpose of this article is to present the Semitic languages taught 
in the University of São Paulo. Starting from a historical panorama, we will present 
the  momentum  in  which  the  Semitic  languages  started  in  the  USP. Afterwards 
we  will  present  a  concise  introduction  of  what  are  Semitic  languages  and  their 
respective classifications. Finally, we describe which languages and in which le-
vels they are offered in the USP.
Key words: Semitic languages, Arabic, Hebrew, Aramaic.
Panorama histórico
A Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas – FFLCH – da Universi-
dade de São Paulo oferece, praticamente, desde a sua criação cursos de algumas 
línguas semíticas, a saber, de árabe, aramaico e hebraico. A língua árabe e a língua 
hebraica foram ensinadas nesta universidade primeiramente como “cursos livres”, 
como hoje é o curso de aramaico. Estas duas línguas se firmaram no decorrer do 
tempo e hoje fazem parte do programa de graduação e pós-graduação dos cursos de 
línguas oferecidos pela FFLCH. O curso de língua árabe existe na Universidade de 
São Paulo, em caráter oficial, desde 1963. Entretanto, teve início como curso livre 
em 1944, inicialmente estimulado pelo Centro Brasileiro de Cultura Árabe, criado 
pouco tempo antes.
__________
*Professor  Doutor  da  Área  de  Língua  Hebraica,  Literatura  e  Cultura  Judaicas,  Departamento  de  Línguas 
Orientais, Universidade de São Paulo.

Reginaldo Gomes de Araújo - Línguas Semíticas na Universidade de São Paulo
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A instalação do curso de árabe deu-se por iniciativa de membros expressivos 
da esfera intelectual da colônia sírio-libanesa e com integral apoio do reitor da 
Universidade de São Paulo, na época, o Prof. Dr. Jorge Americano, e de professores 
conceituados da FFLC (hoje FFLCH), dentre os quais podemos destacar o prof. 
Francisco da Silveira Bueno. O primeiro professor responsável pelo curso foi o 
prof. Taufik Kurban, titulado pela Universidade Americana de Beirute, Líbano. A 
seguir, assumiu o curso o prof. Jamil Sáfady, igualmente formado para o ensino 
do idioma e literatura árabes, permanecendo no cargo até fins da década de 50. 
Todavia, as atividades do Curso de Língua e Literatura Árabe iniciaram em 1963, 
na então FFLC, o professor Helmi Mohamed Ibrahim Nasr, que viera do Egito 
em 1962, como professor visitante. A partir de 1967, o curso de árabe passou a 
pertencer  ao  conjunto  de  Letras  Orientais,  oferecendo  as  disciplinas  de  língua 
árabe, literatura árabe e cultura árabe. Desde 1993 o curso de Língua Árabe passou 
a ter também um programa de pós-graduação, em nível de mestrado.
A língua hebraica, como a língua árabe, existe como curso livre desde 1947, 
quando  o  Rabino  prof.  Fritz  Pinkuss  foi  convidado  para  ministrar  aulas  nesta 
área. Em 1962 foi criado o Curso de graduação em Hebraico, na Área de Estudos 
Orientais,  sendo  mais  tarde  transferido  para  o  Departamento  de  Lingüística  e 
Línguas Orientais, hoje Departamento de Línguas Orientais da FFLCH. A partir 
de 1966 o curso passou a ter a colaboração da Profa. Rifka Berezin que assumiu 
a chefia após a aposentadoria do Prof. Pinkuss em 1975. Em 1983 foi criado o 
Curso de Especialização em Hebraico, em nível de pós-graduação, com duração 
de quatro semestres, tendo com o objetivo o aperfeiço-amento de bacharelandos e 
futuros candidatos para a área de pesquisa e de pós-graduação. A língua hebraica 
passou a ter programa de pós-graduação em 1989, em nível de mestrado. Hoje 
o  programa  de  Hebraico  oferece,  além  da  graduação,  programa  de  mestrado  e 
doutorado e nos últimos anos, a saber, desde 2001, também conta com a pre-sença 
de pós-doutorandos.
A partir de 2002, com a presença do recém-doutor Reginaldo Gomes de Araújo, a 
Universidade de São Paulo passou a oferecer também, como extensão universitária, 
mais um idioma da família das línguas semíticas: o Aramaico. Este curso tem sido 
ministrado semestralmente, possibilitando aos alunos dos programas de árabe e 
hebraico  conhecerem  mais  uma  língua  semítica  que  contribui  para  aprofundar 
transformações  lingüísticas  ocorridas  no  árabe  e  no  hebraico  no  decorrer  do 
tempo. Desde então, têm sido oferecidos cursos de aramaico nos dialetos bíblicos 
e targúmicos. Estas são as línguas semíticas ensinadas na USP. Que são línguas 
semíticas? Que relação há entre elas? Estas e outras questões serão respondidas 
nos parágrafos seguintes.

Revista de Estudos Orientais n. 6, pp. 15-29 - 2008
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Depois  deste  panorama  histórico  da  presença  de  línguas  semíticas  no  curso 
de Letras da USP, podemos, agora, apresentar uma breve introdução às línguas 
semíticas e em seguida indicar, de forma breve, como estes idiomas são ensinados 
na USP, mostrando sua origem, sua classificação e a relação existente entre eles. 
A  ordem  aqui  apresentada  está  baseada  somente  na  ordem  alfabética  e  não  na 
contribuição  e  importância  lingüística  de  cada  um  deles  no  âmbito  das  línguas 
semíticas. Interessante é que as línguas semíticas estudadas na USP apresentam 
ramificações diferentes, isto é, o árabe representa o Sul-Ocidental, o hebraico e 
aramaico  o  Norte-Ocidental,  o  hebraico  é  da  família  cananéia  e  o  aramaico  da 
família araméia. Todas semíticas, mas com ramificações diferentes. Seja por acaso 
ou  não,  este  fato  possibilita  aos  estudantes  de  línguas  orientais  conhecer  três 
grandes grupos de línguas semíticas. Além disto, eles terão possibilidades, em um 
futuro breve, de conhecer também línguas semíticas do grupo norte-oriental como 
o acádico e seus dialetos.


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